Um sonho, uma realidade e um futuro promissor
20 Fev 2020

Coragem, determinação e otimismo são características que marcam os 70 anos da Família Van Ass no Brasil e a trajetória de 50 anos da Van Ass Sementes. Em entrevista com o Sr. Hermanus Van Ass, um dos protagonistas dessa história, é possível perceber que a união dos pais e dos filhos, a visão empreendedora da família e o sonho de construírem uma vida melhor, motivaram a vinda para o Brasil e impulsionaram o sucesso de cada um e, principalmente, da empresa. Nessa entrevista ele conta um pouco dos principais fatos que fizeram parte da sua vida e da Van Ass Sementes.


O Sr. viveu na Holanda até os 9 anos de idade, juntamente com seus pais e seus irmãos. Poderia resumir como foi a vinda da família de lá até a partida para o Brasil?

Nós éramos uma família de 10 pessoas: o pai, a mãe e oito filhos. Nossa casa era muito grande e ficava emendada com a estrebaria e o chiqueiro, e no sótão, era armazenado o feno, como a maioria das propriedades daquela época. Meu pai era técnico agrícola e minha mãe ajudava a tirar leite e cuidava da casa. Vivíamos da criação de gado, venda de leite e plantio de um pedaço de terra de 25 hectares que eram cultivados com batatinha, beterraba, aveia, trigo e outras culturas.

O que influenciou na decisão de deixar a Holanda?

Uma das coisas foi que o pai só tinha 25 hectares de terra, isso não dava mais pra sustentar os oito filhos. E, também, por causa da Guerra, que destruiu muita coisa.

Que lembranças tem da Guerra?

Nós passamos um tempo difícil. A gente escapou por pouco. Na nossa casa foi instalado um quartel general alemão. Então fomos para o interior, na casa de uma moça que trabalhava para os meus pais. E lá, nesta casa, sobrou pouca coisa. Lembro que no dia do ataque estávamos no porão. E a parte de cima ficou destruída. Os soldados alemães nos viram e perguntaram se tinha alemães, então falamos que sim. Pediram pra ele sair e libertaram todos nós. E na casa que era nossa não aconteceu nada, porque quando os aliados entraram, os alemães já tinham ido embora.

Porque escolheram o Brasil?

A Holanda tinha programas de imigração com vários países, como Canadá, Austrália, Estados Unidos, Brasil e outros. Mas o pai queria o Brasil porque estava encantado com o que ouvia falar das terras brasileiras. Vendeu a propriedade e partimos todos para cá. Desembarcamos no Brasil, no Porto de Santos, no ano de 1949 e seguimos para a cidade de Holambra 1, Campinas-SP.

E como foi o começo no Brasil?

Lá em Holambra, não foi fácil. Ganhamos um pedaço de terra e uma casa, porém tudo era controlado por uma cooperativa. Tínhamos que plantar o que eles queriam e quem mandava eram uns jovens de 18 a 20 poucos anos. Isso meu pai não aceitou, pois ele tinha ideias próprias e queria ser dono do próprio nariz. Então decidiu deixar a Holambra.

E para aonde partiram?

De Holambra, despachamos um caminhão com a mudança e nós embarcamos em um avião DC3, da Varing, com destino a Não-Me-Toque. O avião pousou em um campo que ficava entre Não-Me-Toque e Carazinho. Na primeira noite dormimos na casa dos padres franciscanos, pois foi por intermédio destes padres que viemos para Não-Me-Toque. Um dos padres, o frei Marculino que morava em Holambra, tinha um irmão que contou sobre Não-Me-Toque ser um município de origem alemã, onde tinha a cultura europeia e também as pessoas falavam alemão. Isso pegou tão bem pro pai e a mãe. O pai então comprou um pedaço de terra do lado da propriedade de um amigo e lá tinha uma casinha de madeira para a família morar. Recebemos uma ajuda da Holanda e, em sociedade com um amigo, compramos um trator. Nesse momento, também, vendemos a terra em Não-Me-Toque e compramos lavoura em Ernestina.

E como vieram parar em Panambi?

Em Ernestina nós tínhamos vários pedaços de terra, uns comprados e outros que o pai alugava. Eram espalhados, distantes um do outro. Então começamos a pensar em Palmeira das Missões, onde tinha um amigo da família que tinha terras. O pai foi conhecer o lugar e achou bom, então fez negócio. O dono desta terra que o pai negociou morava em Panambi e nós viemos então até aqui para acertar tudo com ele. Quando chegamos em Panambi, ficamos sabendo que a cidade tinha muitos imigrantes alemães e a cultura era muito mais próxima da Holanda do que em Não-Me-Toque. Então nos mudamos pra cá (Panambi), mas continuamos plantando em Palmeira. O povo nos recebeu muito bem. Foi uma cidade fantástica para toda a família, principalmente para a mãe, que só falava alemão. Nossa família, nessa época, já era composta de 15 pessoas, pois nasceram mais 5 irmãos aqui no Brasil.

Como então surgiu a Van Ass Sementes?

Surgiu quando meu irmão Antônio se formou em agronomia. Então o pai resolveu começar a produzir sementes junto com os filhos. Naquela época se lidava com bolsas ainda. Tinha semente própria. A gente já seguia as normas e começamos a vender em toda a região. Eu sempre fui o homem da lavoura e das máquinas. Com os anos, dividimos o negócio. Alguns dos meus irmãos foram para o centro-oeste, e eu e meu irmão Leonardo, ficamos aqui. Ele passou a produzir em separado, mas sempre para a Van Ass Sementes, que continuava sendo de nós dois. Depois que ele faleceu, então ficaram os sobrinhos, que também plantam em separado, mas estão juntos na Van Ass Sementes.

Como conseguiu passar o encantamento pelo negócio para a terceira geração?

Eles viam a gente sempre envolvido e então logo os filhos, os guris, queriam fazer agronomia para ajudar no negócio. Então foram para o colégio agrícola, na cidade de Três de Maio. Lá eles aprenderam muito, pois tinham que fazer de tudo: tratar as vacas, limpar chiqueiro, cuidar gado e ir pra lavoura. Foi na prática que eles aprenderam e gostaram.

Como resumir os 50 anos da Van Ass Sementes?

Isso me emociona porque passou tão ligeiro, que até me deixa preocupado. Não dá pra imaginar que passaram-se 50 anos. Já estamos na terceira geração e logo espero que venha a quarta, os netos, que são a minha paixão. Foram anos de muita realização porque eu sempre gostei muito do que eu fiz.

Que mensagem gostaria de deixar para as próximas gerações?

Eu só posso dizer aos jovens que eu estou com “ciúmes” do que vem pela frente, porque ainda vai ter muita tecnologia e inovação, que vai deixar todos admirados com o que vai acontecer. Se eu penso como nós começamos a trabalhar, e hoje o que temos de máquinas, não dá para acreditar como evoluiu a agricultura. Eu gostaria de viver mais uns 100 anos para ver o que vai ser o futuro. O Brasil é um país fantástico, é um gigante adormecido que tem muito potencial para evoluir. Aproveitem as oportunidades que estão por vir.